Você já se deparou com pacientes que apresentam pequenas lesões em forma de cunha na região cervical dos dentes, mesmo sem histórico de cárie ou trauma evidente?
Esse cenário é mais comum do que parece e representa um desafio diagnóstico e terapêutico na clínica odontológica.
Estamos falando da abfração dental, uma condição multifatorial que vem despertando o interesse de pesquisadores e clínicos pela sua complexidade etiológica e pelo impacto que pode gerar na saúde bucal e na qualidade de vida do paciente.
A compreensão da abfração vai além da simples identificação da perda de estrutura dentária.
Trata-se de entender como fatores biomecânicos, hábitos parafuncionais e condições oclusais interagem e contribuem para a formação dessas lesões não cariosas cervicais (LNCCs).
Por isso, discutir esse tema de forma aprofundada é fundamental para que o cirurgião-dentista esteja apto a diagnosticar precocemente, intervir adequadamente e orientar medidas preventivas eficazes.
Ao longo deste artigo, exploraremos os principais aspectos relacionados à abfração dental: definição, sinais clínicos, complicações, causas, formas de tratamento e estratégias de prevenção.

O que é abfração dental?
A abfração dental é classificada como uma lesão não cariosa cervical (LNCC), caracterizada pela perda de estrutura dentária na região da junção amelo-cementária.
As LNCCs correspondem a um grupo de alterações que incluem também abrasão e erosão, todas com o denominador comum de promover desgaste cervical sem a presença de cárie.
O que diferencia a abfração das demais é o seu mecanismo biomecânico: a flexão dentária decorrente de forças oclusais excêntricas.
Sua morfologia típica é a de uma cavidade em formato de cunha ou “V” invertido, localizada no terço cervical da coroa.
Durante hábitos como o bruxismo ou em casos de má oclusão, ocorre a concentração de tensões nessa região, levando a microfraturas do esmalte e da dentina.
Com o tempo, essas microfraturas evoluem para perdas progressivas de estrutura, mesmo na ausência de agentes químicos ou abrasivos diretos.
Embora a etiologia principal esteja relacionada a fatores oclusais, a literatura científica aponta para uma interação multifatorial, em que hábitos parafuncionais, dieta ácida e técnicas inadequadas de higiene oral podem atuar como fatores agravantes.[

Quais são os sinais da abfração?
O diagnóstico clínico da abfração requer atenção minuciosa, já que muitas vezes essas lesões são confundidas com abrasão ou erosão.
Os sinais mais característicos incluem:
- Lesões cervicais em formato de cunha, geralmente bem delimitadas;
- Presença de bordas afiadas na região afetada;
- Hipersensibilidade dentinária, principalmente a estímulos térmicos e táteis;
- Comprometimento estético em dentes anteriores, devido à exposição cervical;
- Eventual pigmentação da lesão por acúmulo de biofilme e corantes alimentares.
A associação de anamnese detalhada e exame clínico cuidadoso é indispensável para diferenciar a abfração de outras LNCCs.

Quais complicações a abfração pode causar?
Se não diagnosticada e tratada precocemente, a abfração pode evoluir para problemas mais complexos, como:
- Aumento da hipersensibilidade dentinária, dificultando a mastigação;
- Perda estética, principalmente em dentes anteriores;
- Maior suscetibilidade a cáries secundárias, já que a dentina exposta é menos resistente à desmineralização;
- Risco de fratura coronária, em casos de lesões profundas associadas a forças oclusais intensas;
- Comprometimento periodontal, pela maior retenção de biofilme e inflamação gengival adjacente.
Essas complicações reforçam a importância do acompanhamento clínico contínuo e de estratégias preventivas.

Principais causas da abfração dental
Diversos fatores podem atuar de forma isolada ou associada na gênese das lesões de abfração.
Entre eles, destacam-se:
Bruxismo
O bruxismo é um dos principais fatores relacionados à abfração.
Durante o apertamento ou ranger dos dentes, ocorre sobrecarga oclusal que gera microflexões no colo dentário, favorecendo o surgimento das lesões.
Roer unhas e canetas
Hábitos parafuncionais, como roer unhas, tampas de canetas ou objetos duros, aumentam a carga mecânica sobre os dentes e podem intensificar a flexão cervical.
Má escovação
O uso excessivo de força durante a escovação, aliado a escovas de cerdas duras, não é a causa primária da abfração, mas pode acelerar a perda estrutural já iniciada pela flexão dentária.

Má oclusão
Desajustes oclusais contribuem para a distribuição desigual de forças mastigatórias, aumentando a concentração de tensões na região cervical.
Mastigação Unilateral
O hábito de mastigar preferencialmente de um lado gera sobrecarga localizada, aumentando o risco de desenvolvimento das lesões na hemiarcada mais utilizada.
Inflamação gengival
A presença de inflamação gengival pode potencializar a progressão da abfração pela alteração do suporte periodontal e aumento da retenção de biofilme.
Próteses ou restaurações mal ajustadas
Restauradores e próteses que alteram a dinâmica oclusal podem redirecionar forças mastigatórias, predispondo o paciente ao desenvolvimento de lesões cervicais não cariosas.

Tratamento para abfração dental
O tratamento da abfração deve ser individualizado e considerar a gravidade da lesão, os sintomas e os fatores etiológicos envolvidos.
Entre as principais condutas estão:
- Ajuste oclusal para redistribuição de forças mastigatórias – pequenas correções na superfície oclusal podem reduzir áreas de sobrecarga, equilibrando a distribuição das forças durante a mastigação e diminuindo o risco de novas microfraturas cervicais.
- Uso de placas interoclusais em pacientes com bruxismo – as placas miorrelaxantes promovem proteção contra o desgaste dentário, reduzem a intensidade das forças oclusais e auxiliam no controle da dor muscular e da tensão articular.
- Restaurações estéticas com resina composta ou ionômero de vidro, quando a lesão compromete estética ou causa hipersensibilidade – essas opções restauradoras reconstituem a anatomia perdida, proporcionam alívio imediato da sensibilidade e melhoram a estética do sorriso, especialmente em dentes anteriores.
- Controle de hábitos parafuncionais, com orientação ao paciente – a conscientização é parte fundamental do tratamento, já que hábitos como roer unhas ou morder objetos podem agravar o quadro clínico e comprometer os resultados obtidos.
- Tratamento periodontal associado, quando há inflamação gengival – a integração com a periodontia garante melhor controle do biofilme, reduz inflamações locais e contribui para a longevidade das restaurações.
O objetivo não é apenas restaurar a estrutura perdida, mas também interromper a progressão da lesão e prevenir recorrências, atuando diretamente sobre a causa subjacente.
Dessa forma, a abordagem terapêutica combina a resolução dos sinais clínicos com o manejo dos fatores biomecânicos e comportamentais que originam a abfração.

Como prevenir a abfração dentária?
A prevenção é sempre a estratégia mais eficaz, especialmente em pacientes com risco aumentado.
Algumas medidas importantes incluem:
Escovar corretamente
Orientar o paciente a utilizar técnicas de escovação adequadas, evitando pressão excessiva e escolhendo escovas com cerdas macias.
Consumir menos alimentos ácidos
A ingestão frequente de alimentos e bebidas ácidas pode fragilizar o esmalte e favorecer a evolução da abfração.
Evitar hábitos prejudiciais
Desestimular práticas como roer unhas, morder objetos e mascar chicletes por longos períodos.
Mastigar de forma equilibrada
Estimular a mastigação bilateral contribui para a distribuição uniforme das forças mastigatórias.
Fazer visitas regulares ao dentista
Consultas periódicas possibilitam a detecção precoce de lesões iniciais e a intervenção antes que haja progressão significativa.

Qual a diferença entre abfração e abrasão?
Apesar de apresentarem manifestações clínicas semelhantes, abfração e abrasão possuem origens distintas que precisam ser cuidadosamente diferenciadas na prática clínica.
A abfração está relacionada à perda de estrutura dentária cervical provocada por forças oclusais excêntricas, que geram flexões repetidas no dente e resultam em cavidades em formato de cunha, bem definidas e localizadas próximas à junção amelo-cementária.
Já a abrasão é consequência do atrito mecânico direto, frequentemente associado a técnicas inadequadas de escovação, ao uso de escovas de cerdas duras ou de dentifrícios altamente abrasivos, o que produz superfícies mais arredondadas e polidas.
Reconhecer essas diferenças é indispensável para definir a conduta terapêutica correta, pois cada condição exige estratégias específicas de manejo clínico.
Em muitos casos, ambas podem coexistir em um mesmo paciente, o que reforça a importância de uma abordagem integrada, contemplando desde o ajuste oclusal até a orientação de higiene bucal e a escolha criteriosa de materiais restauradores.

Conclusão
A abfração dental é uma condição clínica que merece atenção especial dos profissionais da odontologia.
Sua identificação precoce, o manejo dos fatores causais e a adoção de estratégias preventivas são fundamentais para preservar a saúde bucal do paciente e evitar complicações futuras.
Na prática clínica, compreender os mecanismos envolvidos na abfração possibilita um diagnóstico mais preciso e uma conduta terapêutica eficaz, fortalecendo a relação profissional-paciente e garantindo melhores resultados.
Nesse contexto, a área da Dentística tem papel fundamental, já que abrange o diagnóstico e o tratamento restaurador das lesões cervicais não cariosas, como a abfração.
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Referências:
https://www.codental.com.br/blog/abfracao-dental-um-guia-completo-sobre-esse-problema/
https://blog.odontocompany.com/abfracao-dental-quais-as-causas-e-tratamentos-dessa-lesao
https://blog.segurosunimed.com.br/abfracao-dental/
https://apexodontologia.com.br/ja-ouviu-falar-em-abfracao-dental-conheca-as-causas-do-problema/
*O texto acima não foi escrito por cirurgião dentista, portanto a EAP não se responsabiliza pelas informações, uma vez que não possuem caráter científico.