Na prática clínica odontológica contemporânea, compreender a função vai muito além de avaliar estruturas dentárias isoladas.
Cada vez mais, torna-se evidente que alterações funcionais precoces podem exercer influência direta sobre o crescimento craniofacial, a oclusão e a estabilidade dos tratamentos realizados ao longo da vida.
Nesse contexto, a deglutição atípica na infância surge como um tema que exige atenção criteriosa, diagnóstico precoce e atuação interdisciplinar bem definida.
Durante a rotina clínica, não é incomum que o cirurgião-dentista identifique crianças com mordida aberta anterior, projeção lingual, dificuldades de selamento labial ou hábitos orais persistentes.
Em muitos desses casos, tais achados não representam apenas alterações morfológicas, mas sinais de um padrão funcional inadequado que se perpetua ao longo do desenvolvimento.
A deglutição atípica, quando não reconhecida e abordada de forma adequada, pode comprometer resultados ortodônticos, favorecer recidivas e impactar negativamente o equilíbrio do sistema estomatognático.
Dessa forma, discutir como ocorre o processo fisiológico da deglutição, entender o que caracteriza a deglutição atípica, reconhecer seus sinais clínicos, identificar suas causas e compreender as possibilidades terapêuticas torna-se essencial para o profissional que busca uma atuação clínica mais completa, preventiva e baseada em evidências.

Como ocorre a deglutição?
A deglutição é um processo neuromuscular complexo, coordenado por centros nervosos específicos, que envolve estruturas da cavidade oral, faringe e esôfago.
Trata-se de uma função vital, adquirida ainda no período intrauterino, mas que passa por adaptações importantes ao longo do crescimento e desenvolvimento craniofacial.
Didaticamente, a deglutição é dividida em cinco fases, cada uma com características próprias e papel fundamental para que o processo ocorra de forma eficiente e segura.
Primeira fase: antecipatória
A fase antecipatória antecede o contato do alimento com a cavidade oral. Nessa etapa, estímulos visuais, olfativos e cognitivos preparam o sistema nervoso para o ato de se alimentar.
Ocorre ativação de centros cerebrais responsáveis pela salivação, pela organização postural e pelo preparo motor necessário para receber o alimento.
Embora muitas vezes negligenciada, essa fase influencia diretamente a coordenação das etapas seguintes, especialmente em crianças com alterações neuromotoras ou sensoriais.
Segunda fase: preparatória
Na fase preparatória, o alimento é introduzido na cavidade oral e passa por manipulação inicial.
Há atuação coordenada da língua, dos músculos mastigatórios, dos lábios e das bochechas. O objetivo é triturar, umedecer e organizar o alimento em um bolo alimentar homogêneo, adequado para ser transportado posteriormente.
Em crianças, essa fase está intimamente relacionada ao tipo de alimentação oferecida, ao desenvolvimento da mastigação e à maturação muscular orofacial.
Alterações nessa etapa podem favorecer padrões compensatórios de deglutição.
Terceira fase: oral
A fase oral marca o momento em que o bolo alimentar é conduzido da cavidade oral para a orofaringe.
A língua exerce papel central, posicionando-se contra o palato duro e realizando movimentos anteroposteriores coordenados. Os dentes encontram-se em oclusão estável, os lábios permanecem selados e a musculatura perioral atua de forma equilibrada, sem esforço excessivo.
É nessa fase que se observam, com maior clareza, os desvios funcionais associados à deglutição atípica, como a interposição lingual anterior ou lateral e a contração exagerada dos músculos faciais.
Quarta fase: faríngea
A fase faríngea é predominantemente reflexa e involuntária.
O bolo alimentar ultrapassa a orofaringe, ocorre elevação do palato mole para vedação da nasofaringe, fechamento da glote para proteção das vias aéreas e contração sequencial da musculatura faríngea.
Qualquer falha nessa etapa pode resultar em engasgos, tosse ou aspiração, embora essas alterações sejam menos frequentes em casos isolados de deglutição atípica sem comprometimento neurológico.
Quinta fase: esofágica
Na fase esofágica, o bolo alimentar é conduzido ao estômago por meio de movimentos peristálticos do esôfago.
Trata-se de uma etapa automática, sob controle do sistema nervoso autônomo, sem interferência direta da cavidade oral.

O que é deglutição atípica?
A deglutição atípica é caracterizada pela persistência de um padrão imaturo ou inadequado de deglutição após a idade em que se espera a consolidação do padrão adulto.
Do ponto de vista funcional, observa-se uma alteração na postura e na dinâmica da língua, frequentemente associada à participação excessiva da musculatura perioral durante o ato de engolir.
Em vez de posicionar-se de forma adequada contra o palato, a língua projeta-se anteriormente ou lateralmente, podendo interpor-se entre os dentes. Esse padrão costuma vir acompanhado de ausência de oclusão dentária durante a deglutição, selamento labial forçado e contração exagerada do músculo mentual.
Na infância, é importante ressaltar que determinados padrões considerados atípicos podem ser transitórios e fisiológicos.
Contudo, quando persistem além do período esperado de maturação funcional, passam a exercer influência negativa sobre o desenvolvimento dentofacial.

Quais as causas da deglutição atípica?
A etiologia da deglutição atípica é multifatorial, resultando da interação entre fatores funcionais, estruturais e ambientais.
Entre as principais causas, destacam-se:
- Persistência de hábitos orais deletérios, como sucção digital, uso prolongado de chupeta ou mamadeira, que interferem no posicionamento da língua e no padrão muscular.
- Respiração bucal crônica, frequentemente associada a obstruções nasais, hipertrofia de adenoides ou rinite alérgica, levando a uma postura lingual baixa e adaptativa.
- Alterações anatômicas, como freio lingual curto, macroglossia ou discrepâncias transversais maxilares, que dificultam o posicionamento correto da língua.
- Déficits na maturação neuromuscular, especialmente em crianças com atraso no desenvolvimento motor ou alterações neurológicas leves.
- Fatores alimentares, incluindo introdução tardia de alimentos sólidos e consistências inadequadas, que comprometem o desenvolvimento da mastigação.
A identificação da causa predominante é fundamental para o planejamento terapêutico e para a definição da abordagem interdisciplinar mais adequada.

Quais os sinais de deglutição atípica na criança?
O reconhecimento clínico da deglutição atípica exige observação criteriosa e conhecimento funcional.
Entre os sinais mais frequentemente identificados na prática odontológica, destacam-se:
- Projeção ou interposição da língua durante a deglutição;
- Ausência de contato dentário no momento de engolir;
- Contração excessiva dos músculos periorais e do mento;
- Selamento labial forçado ou incompetente em repouso;
- Presença de mordida aberta anterior ou lateral;
- Alterações associadas, como respiração bucal, fala infantilizada ou ceceio.
Esses sinais, quando avaliados em conjunto, fornecem subsídios importantes para o diagnóstico funcional e para o encaminhamento adequado.

Tem tratamento para deglutição atípica?
Sim, o tratamento da deglutição atípica é possível e apresenta melhores resultados quando realizado de forma precoce, planejada e interdisciplinar.
A abordagem deve ser individualizada, considerando a idade da criança, a etiologia envolvida e as alterações estruturais associadas.
Terapia miofuncional
A terapia miofuncional orofacial, conduzida por fonoaudiólogo capacitado, tem como objetivo reeducar os padrões musculares da língua, lábios e bochechas.
Por meio de exercícios específicos, busca-se promover:
- Correção da postura lingual em repouso e durante a deglutição;
- Equilíbrio da musculatura perioral;
- Adequação das funções de mastigação, deglutição e fonação.
O sucesso dessa abordagem depende da adesão da criança e da família, bem como da integração com o tratamento odontológico.
Tratamento ortodôntico
O tratamento ortodôntico pode atuar como importante aliado no manejo da deglutição atípica, especialmente quando há más oclusões associadas.
Dispositivos como grades linguais, aparelhos funcionais ou expansores maxilares auxiliam na reorganização do espaço intraoral e na contenção de hábitos inadequados.
A atuação ortodôntica, quando alinhada à terapia miofuncional, favorece resultados mais estáveis e previsíveis ao longo do crescimento.

O que pode ocorrer se não for tratado?
A ausência de intervenção adequada pode levar à perpetuação do padrão disfuncional, com impactos significativos no desenvolvimento orofacial.
Entre as principais consequências, destacam-se:
- Agravamento ou manutenção de más oclusões, como mordida aberta;
- Instabilidade e recidiva de tratamentos ortodônticos;
- Alterações estéticas faciais decorrentes do desequilíbrio muscular;
- Comprometimento funcional da mastigação, da fala e da respiração;
- Impactos psicossociais relacionados à estética e à comunicação.
Esses desdobramentos reforçam a importância da abordagem precoce e integrada.

Conclusão
A deglutição atípica na infância representa um desafio clínico relevante para a odontologia moderna, exigindo do profissional uma visão ampliada, que integre função, estrutura e desenvolvimento.
Ao compreender os mecanismos envolvidos, reconhecer os sinais precoces e atuar de forma interdisciplinar, o cirurgião-dentista contribui de maneira efetiva para a promoção da saúde orofacial e para a estabilidade dos tratamentos ao longo do tempo.
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https://redeplusodontologia.com.br/degluticao-atipica-nas-criancas-riscos-e-como-tratar/
https://repositorio.uniube.br/bitstream/123456789/830/1/DEGLUTI%C3%87%C3%83O%20AT%C3%8DPICA.pdf
https://clinicaodontomania.com.br/ortodontia/degluticao-atipica.html
https://doutor.myobracebrasil.com.br/degluticao-atipica-nas-criancas-riscos-e-como-tratar/
*O texto acima não foi escrito por cirurgião dentista, portanto a EAP não se responsabiliza pelas informações, uma vez que não possuem caráter científico.