Manter-se atualizado é uma exigência constante para o cirurgião-dentista que busca oferecer um atendimento baseado em evidências.
Dentro desse universo, os dentifrícios ganham papel central na manutenção da saúde bucal.
Afinal, apesar de sua aparente simplicidade, o creme dental é uma ferramenta essencial na prevenção de doenças bucais e no suporte terapêutico de diversas condições orais.
Este artigo foi desenvolvido com o objetivo de oferecer um guia completo, atualizado sobre os dentifrícios.
Vamos abordar desde sua composição e classificação até os critérios clínicos para sua indicação individualizada.
A proposta é criar um material prático e relevante para o seu dia a dia clínico.

O que é dentifrício?
O dentifrício, mais comumente conhecido como creme dental, é um composto formulado para ser utilizado em conjunto com a escova dental, com a finalidade de auxiliar na limpeza da superfície dental e tecidos moles, promover a remineralização do esmalte, controlar a flora bacteriana bucal e contribuir para o frescor do hálito.
Mais do que um simples veículo de higiene, o dentifrício atua como um agente terapêutico, sendo capaz de auxiliar no controle de doenças como cárie dentária, gengivite, periodontite, hipersensibilidade dentinária, entre outras.

Do que é feita a pasta de dente?
A eficácia do dentifrício depende diretamente de sua formulação. Cada componente desempenha uma função específica e, quando combinados adequadamente, promovem um efeito sinérgico na saúde bucal. Confira a seguir as possíveis composições dos dentifrícios.
Flúor
O creme dental fluoretado é responsável pela remineralização do esmalte e pela inibição da desmineralização, o flúor é o princípio ativo mais estudado e consolidado na prevenção da cárie dentária.
Ele está presente em diversas formas, como fluoreto de sódio, monofluorfosfato de sódio ou fluoreto de estanho.
Na publicação “Dentifrícios e enxaguatórios bucais: produtos que podem ser prescritos pelo dentista“, por Jaime Aparecido Cury, Maria Luiza de Moraes Oliveira, eles pontuam as composições dos sais fluoretados:
- Fluoreto de Sódio (NaF): em geral contêm sílica como abrasivo;
- Monofluorfosfato de sódio (MFP): maioria é formulada com carbonato de cálcio como abrasivo;
- Fluoreto de Amina (AmF): não é comumente usado no Brasil;
- Fluoreto Estanhoso (SnF2): são formulações de difícil manipulação, devido à instabilidade química desse sal em meio aquoso. Contudo, é o único sal fluoretado que reduz cárie e inflamação gengival. Algumas formulações com SnF2 apresentam aditivos para controle da pigmentação e da formação do tártaro.

Abrasivos
Promovem a remoção mecânica da placa bacteriana e manchas, sem danificar o esmalte ou a dentina, se utilizados em concentrações adequadas. Incluem substâncias como sílica hidratada, carbonato de cálcio ou fosfato dicálcico.
A abrasividade é medida pelo índice Relative Dentin Abrasivity (RDA), em que cada tipo de creme dental recebe uma pontuação de 0 a 250:
- Pouco abrasivo: 0-70
- Médio abrasivo: 70-100
- Alto abrasivo: 100-150
- Nocivo: 150-250
São indicados os RDA mais baixos, para não causar dano.

Detergentes
Os detergentes proporcionam a formação de espuma, auxiliando na dispersão dos ingredientes ativos e no desprendimento de restos alimentares.
O mais comumente utilizado é o lauril sulfato de sódio (LSS), mas é preciso cuidado porque em altas concentrações pode causar sensibilidade em algumas pessoas, sendo necessário recomendar pastas dentais sem eles para os pacientes alérgicos.

Umectantes
Glicerina, ropilenoglicole sorbitol são exemplos de umectantes, cuja função é evitar o ressecamento da pasta, de forma que fique uma boa textura para escovar os dentes.

Ligantes
Para manter os componentes misturados, consistentes e com cremosidade, são usados agentes de ligação nos cremes dentais, como o carboximetilcelulose sódica (CMC), ou o alginato de sódio.

Conservantes
Metilparabeno e propilparabeno são comumente utilizados para evitar a proliferação de microrganismos, e assim, preservar o produto. Sendo necessário devido a grande quantidade de água que faz parte da composição.

Flavorizantes e aromatizantes
É o que dá o sabor, cheiro e sensação de frescor do creme dental. Mentol, eucalipto, xilitol e outras essências melhoram a aceitação sensorial do produto e contribuem para o hálito fresco.

Agentes antissépticos e antibacterianos
Os agentes incluem triclosan, clorexidina e zinco, os quais ajudam no controle da gengivite e halitose, reduzindo a carga bacteriana.

Preventivos
Em cremes dentais voltados à prevenção de tártaro, manchas e doenças gengivais, é comum conter pirofosfatos, citrato de zinco ou hexametafosfato de sódio

Tipos de dentifrícios
Creme dental com flúor
Indicada para a maioria da população, é a primeira linha de defesa contra a cárie dentária.
Deve conter entre 1000 ppm e 1500 ppm de fluoreto — o que significa de 1000 a 1500 partes de íons fluoreto por milhão de partes da pasta dental (equivalente a 0,10% a 0,15%).
Essa concentração é cientificamente comprovada como eficaz na prevenção da cárie dentária, promovendo a remineralização do esmalte e a inibição da atividade cariogênica, quando associada ao uso diário e à escovação adequada.
É recomendada para pacientes de todas as idades, respeitando-se as quantidades adequadas por faixa etária, desde que não haja contraindicação específica.

Pasta de dente antisséptica e antibacteriana
Recomendada para pacientes com gengivite ou halitose.
O triclosan e o digluconato de clorexidina são ativos eficazes, especialmente em uso controlado.
Tais formulações auxiliam no controle do biofilme, atuando diretamente na carga bacteriana patogênica, e são especialmente indicadas em terapias coadjuvantes ao tratamento periodontal.
A prescrição deve ser feita com cautela, evitando o uso prolongado sem reavaliação profissional.

Pasta de dente antitártaro
Possui pirofosfatos ou citrato de zinco. Indicada para pacientes com propensão à formação de cálculo supragengival.
Os princípios ativos atuam inibindo a cristalização da placa bacteriana mineralizada, retardando a formação de tártaro.
É indicada, sobretudo, para pacientes com histórico de acúmulo de cálculo mesmo com boa higiene oral, podendo ser associada a medidas mecânicas de controle do biofilme.

Pasta de dente para gengivite
Apresenta agentes anti-inflamatórios e antibacterianos que ajudam a controlar o biofilme e a inflamação gengival.
Essa categoria de dentifrício pode conter extratos naturais com ação anti-inflamatória, como o aloe vera ou a camomila, além de compostos farmacológicos específicos.
É ideal para pacientes que apresentam sangramento gengival recorrente, edema gengival ou sinais iniciais de doença periodontal. Principalmente, se tiver estanho na composição.

Pasta de dentes clareadora
Formulada com abrasivos especiais ou peróxidos, portanto precisa ser utilizada com orientação profissional, evitando desgastes ao esmalte.
Em sua composição, pode conter sílicas com diferentes graus de abrasividade ou peróxido de hidrogênio em baixas concentrações.
O uso contínuo deve ser monitorado, especialmente em pacientes com desgaste dentário pré-existente ou hipersensibilidade, sendo contraindicada em casos de recessão gengival significativa.

Pasta de dente para sensibilidade
Contém nitrato de potássio, arginina ou fluoreto de estanho, promovendo a oclusão dos túbulos dentinários.
Essa ação bloqueia os estímulos externos responsáveis pela dor, proporcionando alívio progressivo ao paciente.
Sua indicação é frequente após procedimentos clareadores, desgaste cervical ou em casos de retração gengival.

Pasta de dente infantil
Possui concentrações reduzidas de fluoreto e saborizantes atrativos, respeitando a segurança na ingestão acidental.
A formulação é pensada para estimular o hábito da escovação sem comprometer a saúde geral.
Deve conter 1000 ppm de flúor, mesmo em pequena quantidade, desde que o uso seja supervisionado.
A aceitação sensorial é relevante para a adesão, e os flavorizantes suaves favorecem a regularidade do uso pelas crianças.

Pasta de dente para xerostomia
Inclui enzimas, fluoreto e componentes que estimulam a salivação, como o xilitol.
É indicada para pacientes com hipossalivação, seja por medicação, radioterapia ou doenças sistêmicas como a síndrome de Sjögren.
Contribui para o conforto oral, prevenção de cáries e controle da microbiota bucal, devendo ser associada a outras medidas de estímulo salivar.

Qual a quantidade correta de creme dental?
A quantidade ideal varia conforme a idade:
- 0 a 3 anos: Um grão de arroz cru;
- 3 a 6 anos: Um grão de ervilha;
- Acima de 6 anos e adultos: Uma faixa de 1 a 2 cm.
Essas quantidades garantem eficácia e evitam os riscos de fluorose.
É fundamental que o cirurgião-dentista oriente pais e cuidadores sobre a dosagem correta, especialmente nas faixas etárias mais jovens, onde o risco de ingestão acidental do flúor é maior.
A adoção de medidas simples, como o uso de escovas com cabeças pequenas e escovação supervisionada, contribui significativamente para a segurança e a eficácia do processo.
A quantidade reduzida, aliada à concentração apropriada de flúor, permite que o dentifrício exerça seu papel preventivo sem comprometer a saúde sistêmica da criança.
Em adultos, a quantidade maior busca maximizar o contato do flúor com a superfície dental, intensificando o efeito remineralizante.
Entretanto, mesmo nessa faixa etária, o excesso de pasta não traz benefício adicional e pode dificultar a escovação ao gerar espuma em excesso, interferindo na técnica e no tempo de escovação.
Portanto, mais importante do que a quantidade em si é o entendimento de seu papel dentro de um protocolo de higiene bucal eficaz e individualizado.

Qual a concentração de flúor para cada idade?
- 0 a 3 anos: 1000 ppm, com uso supervisionado;
- 3 a 6 anos: 1000 ppm, em quantidade reduzida;
- Acima de 6 anos: 1100 a 1500 ppm, conforme risco de cárie;
- Pacientes com alto risco de cárie (adultos): Podem se beneficiar de cremes com até 5000 ppm (uso profissional).
A escolha deve ser guiada pelo risco individual e pelo controle de ingestão.

O que considerar para indicar creme dental para o paciente?
A indicação de um dentifrício deve levar em consideração uma avaliação clínica individualizada.
Entre os fatores determinantes estão:
- Idade e capacidade de expectoração;
- Presença de cáries ou lesões de mancha branca;
- Presença de hipersensibilidade dentinária;
- Quadro de gengivite ou periodontite;
- Hábitos alimentares e higiene bucal;
- Uso de aparelhos ortodônticos ou próteses;
- Se tem alguma alergia;
- Xerostomia ou alterações salivares.
Essa abordagem personalizada maximiza os resultados do tratamento e melhora a adesão do paciente.

Conclusão
Conhecer a fundo os diferentes tipos de dentifrícios e suas indicações permite ao cirurgião-dentista oferecer uma orientação personalizada, eficaz e baseada em evidências.
Mais do que escolher um “bom creme dental”, é essencial indicar aquele que se adequa à real necessidade do paciente.
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Referências:
https://blog.suryadental.com.br/dentificios
https://ceddrodigital.com.br/dentifricios/
https://blog.dentalspeed.com/cremes-dentais
https://www.idealodonto.com.br/blog/dentifricios-guia-completo-dentistas-2/
*Não há publicidade de marca nesse texto, as imagens escolhidas são apenas para representar o tema.
*O texto acima foi preparado a partir de muita pesquisa para ajudar nas suas dúvidas. Porém, não foi escrito por um profissional de odontologia. A EAP não se responsabiliza pelas informações, pois não possuem caráter científico.