Ao longo da rotina clínica, é comum que o cirurgião-dentista se depare com casos que demandam uma abordagem integrada e altamente especializada.
Entre esses casos, os pacientes com leucemia exigem atenção redobrada, planejamento criterioso e conhecimento profundo sobre os impactos sistêmicos da doença e seu tratamento.
Compreender as particularidades desse atendimento não é apenas um diferencial: é um imperativo ético e científico.
Este artigo foi elaborado justamente para dialogar com você, profissional da odontologia, que busca se atualizar continuamente e oferecer um atendimento seguro, eficaz e humanizado.

O que é leucemia?
A leucemia é uma doença hematológica de origem neoplásica que afeta primariamente as células-tronco da medula óssea responsáveis pela hematopoese, interferindo na produção normal de células sanguíneas.
Caracteriza-se por uma proliferação clonal anormal de leucócitos imaturos, que se acumulam tanto na medula quanto no sangue periférico, inibindo a produção das demais linhagens celulares, como hemácias e plaquetas.
Esse processo resulta em uma série de alterações sistêmicas, incluindo imunossupressão, distúrbios de coagulação e anemia.
A presença de leucócitos malignos em grande quantidade leva à disfunção progressiva da medula óssea, provocando uma falência hematopoética que impacta diretamente na capacidade de resposta inflamatória e reparadora do organismo.
No contexto odontológico, essas alterações tornam o paciente onco-hematológico especialmente suscetível a infecções orais, sangramentos espontâneos e complicações pós-operatórias, exigindo uma abordagem clínica cautelosa, criteriosa e multidisciplinar.
Dessa forma, o entendimento da fisiopatologia da leucemia é essencial para que o cirurgião-dentista possa planejar intervenções seguras e eficazes, respeitando as particularidades de cada fase da doença e o estado clínico do paciente.

Classificação da leucemia
A leucemia pode ser classificada com base em dois critérios principais: velocidade de progressão e tipo celular afetado.
Quanto à progressão, ela pode ser aguda (evolui rapidamente, exigindo intervenção imediata) ou crônica (desenvolvimento lento e insidioso).
Já quanto ao tipo celular, divide-se em mieloide ou linfoide. Dessa forma, as quatro principais categorias são:
- Leucemia Linfoide Aguda (LLA)
- Leucemia Mieloide Aguda (LMA)
- Leucemia Linfoide Crônica (LLC)
- Leucemia Mieloide Crônica (LMC)
Cada tipo possui particularidades quanto ao tratamento, prognóstico e complicações bucais associadas.

Manifestações orais da leucemia
As manifestações orais podem ser categorizadas em primárias, secundárias e terciárias, refletindo diferentes mecanismos fisiopatológicos da doença.
Primárias
Relacionam-se à infiltração direta de células leucêmicas nos tecidos bucais.
Clinicamente, o dentista pode observar:
- Hipertrofia gengival;
- Mobilidade dentária sem causa aparente;
- Ulcerações orais persistentes;
- Dor espontânea sem relação com cárie ou trauma.

Secundárias
Decorrem das alterações hematológicas como trombocitopenia e neutropenia.
Entre as manifestações mais recorrentes estão:
- Sangramento gengival espontâneo;
- Petéquias e equimoses;
- Infecções recorrentes, como candidíase e gengivite necrosante.
Terciárias
São manifestações resultantes de efeitos colaterais dos tratamentos antineoplásicos, como quimioterapia e radioterapia. Essas complicações são comuns e exigem condutas odontológicas preventivas e terapêuticas bem definidas.
São “associadas a sangramento mais grave, maior suscetibilidade a infecções, ulcerações, inflamação das membranas mucosas, osteorradionecrose, xerostomia, alterações do paladar, trismo, lesões de cárie e anormalidades dentárias” (Soares et al, 2023).

Qual a importância do tratamento odontológico em pacientes com leucemia?
O tratamento odontológico em pacientes com leucemia representa um componente essencial da abordagem multidisciplinar, contribuindo significativamente para a estabilidade clínica e a redução de riscos sistêmicos.
A presença de focos infecciosos na cavidade bucal, como lesões cariosas profundas, periodontites ou dentes com necrose pulpar, pode representar uma porta de entrada para microrganismos oportunistas, favorecendo quadros de bacteremia e sepse, especialmente durante os períodos de neutropenia induzida pelo tratamento quimioterápico.
Da mesma forma, o comprometimento da hemostasia decorrente da trombocitopenia agrava o risco de hemorragias espontâneas ou induzidas por procedimentos odontológicos invasivos.
Diante desse cenário, o cirurgião-dentista assume papel preventivo e terapêutico, sendo responsável por estabelecer um plano de cuidados individualizado, que contemple a remoção de focos infecciosos, orientações rigorosas de higiene oral e estratégias de manejo da mucosa durante a quimioterapia.
O ideal é que essa atuação se inicie na fase pré-tratamento oncológico, com a realização de exames clínicos e radiográficos completos, permitindo identificar condições que possam comprometer o tratamento médico ou gerar agravos locais.
A continuidade do acompanhamento odontológico ao longo das fases de remissão e manutenção também é indispensável para garantir a saúde bucal, minimizar intercorrências e preservar a qualidade de vida do paciente durante todo o curso da doença.

Manifestações bucais decorrentes do tratamento da leucemia
Mucosite Oral
Uma das complicações mais frequentes e dolorosas da quimioterapia. Caracteriza-se por inflamação intensa e ulceração da mucosa oral, comprometendo a alimentação, a fala e a higiene bucal.
O uso de laserterapia e enxágues com solução de bicarbonato são alternativas eficazes.

Xerostomia e Hipossalivação
A redução no fluxo salivar pode resultar em dificuldade de deglutição, alteração do paladar e maior suscetibilidade a infecções fúngicas e cáries rampantes. Nesses casos, tratamento com saliva artificial ou o uso de medicamentos, como pilocarpina, podem ser indicados.
Disgeusia
É um distúrbio que provoca alterações no paladar, afetando significativamente a qualidade de vida do paciente. Podem ocorrer devido ao uso de medicamentos ou danos às papilas gustativas.

Disfagia
Pode estar relacionada a mucosite intensa, xerostomia ou infecções fúngicas, dificultando a alimentação e exigindo condutas paliativas para alívio dos sintomas.
Ulceração oral
Frequentes em pacientes imunossuprimidos. Podem ser multifatoriais e requerem diagnóstico diferencial com neoplasias, infecções virais e lesões traumáticas.

Categorias de risco para realizar procedimentos odontológicos
A classificação do risco ajuda a determinar a viabilidade e a segurança dos procedimentos odontológicos em diferentes fases da leucemia.
Alto risco
Pacientes com contagem de leucócitos < 2.000/mm³ e plaquetas < 50.000/mm³, em fase ativa da doença ou no pico de mielossupressão.
Procedimentos restritos às emergências e, preferencialmente, realizados em ambiente hospitalar.

Risco moderado
Pacientes com contagem de leucócitos < 2.000/mm³ e plaquetas < 50.000/mm³, em fase ativa da doença ou no pico de mielossupressão.
Também são procedimentos restritos às emergências e, de preferência, realizados em ambiente hospitalar.
Baixo risco
Contagens hematológicas dentro da normalidade, sem sinais de doença ativa. Permitida a realização de procedimentos odontológicos convencionais, sempre com aval do oncologista.

Conclusão
O atendimento odontológico de pacientes com leucemia exige mais do que conhecimento técnico: requer sensibilidade clínica, integração multiprofissional e atualização constante.
Profissionais capacitados têm papel essencial na prevenção de complicações sistêmicas e na promoção da saúde oral durante e após o tratamento oncológico.
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Referências:
https://blog.suryadental.com.br/tratamento-odontologico-de-pacientes-com-leucemia
https://drsergiocaetano.com.br/leucemia-na-odontologia
file:///C:/Users/User/Downloads/1Manifesta%C3%A7%C3%B5es+Bucais+em+Pacientes+com+Leucemia.pdf
https://revistaimplantnews.com.br/cuidados-no-atendimento-odontologico-de-pacientes-com-leucemia/
file:///C:/Users/User/Downloads/392+BJHR.pdf
*O texto acima não foi escrito por cirurgião dentista, portanto a EAP não se responsabiliza pelas informações, uma vez que não possuem caráter científico.